sábado, 18 de junho de 2011

Educação - um labirinto na idade contemporânea! Parte I

Na década de trinta houve verdadeira revolução na educação, que atingiu primeiro a escola e depois adentrou os lares. Em contraposição ao jeito autoritário de ser dos professores na relação com os alunos, surgiu nesse período uma educação que colocava o aluno em destaque no aprendizado.  

Paulo Freire, considerado nos meios pedagógicos um dos maiores mestres em educação é desse período. Simultaneamente surgia no cenário americano um psicólogo, Carl R. Rogers, que deu origem à terapia centrada no cliente e traz no livro Liberdade de Aprender em Nossa Década, de sua autoria, os conceitos da educação centrada no aluno.

Muitas descobertas importantes e que se mantêm até hoje surgiram a partir desse novo olhar para a educação e o bom senso, infelizmente, parece não ter tido o mesmo êxito.

Temos como herança desse período a ocorrência de certa confusão nos papéis. Parece-me que somente somos capazes de lidar com “lá ou cá”, encontrando dificuldade para o meio termo.

Os professores foram lentamente se desfigurando em seu papel nas escolas e nas casas os pais também foram se perdendo.

Nos trabalhos que desenvolvi com professores em diversas escolas era freqüente ouvir queixas onde diziam que os pais estavam deixando para eles toda a educação de seus filhos. Assim, era comum ouvir que tinham que ser psicólogos, assistentes sociais, pai e mãe, além de professores.

Acredito que sabiam que não estavam desempenhando esses papéis que citavam, pois é pouco provável que o professor (a) conseguisse fazer o papel de Assistente Social indo na casa do aluno e proporcionando algo como a (o) Assistente Social fazia e faz. Também é difícil imaginar alguém sendo psicólogo (a) porque se dispôs a ouvir o aluno (a) em algum momento e por isso lhe deu conselhos.

Em verdade tudo foi se clareando na medida em que o trabalho com esses professores se intensificaram. A reclamação dos professores se dava devido o excesso de responsabilidades que lhes estavam sendo cada vez mais impostas sem, contudo, que eles tivessem condições para isso.

Uma reclamação mais generalizada que ainda encontramos diz que as crianças não têm mais infância e que os pais têm sobrecarregado as agendas delas com inúmeras atividades: balé, aulas de inglês, francês, alemão e espanhol, natação, expressão corporal, ginástica artística, pintura, piano (ou teclado), aula de canto, etc.

Bem, talvez haja crianças que os pais para se vêem “livres” delas por algum período, enviem-nas para as diversas atividades acima descritas.

No entanto nem todas as crianças são expostas a esse ritmo, em verdade apenas uma minoria privilegiada consegue isso. Atualmente, as crianças nem sempre desfrutam da rua para brincar e muitas delas nem mesmo de um quintal, além do quê, muitas são filhos únicos e não têm irmãos para construírem sua socialização infantil.

As escolas de período integral tentam resolver parte desse problema. Porém, outra questão séria é originada dessa situação: a criança em período integral na escola deixa de assimilar os valores familiares, a não ser mais superficialmente. Também é verdade que a escola de meio período não garantirá esses mesmos valores para as crianças, visto que os pais, em geral, trabalham fora a maior parte do tempo.

Podemos colocar em dúvida a existência dos valores familiares, até mesmo dizer que se perderam em meio à sociedade capitalista que privilegia valores individualistas, a não ser que seja para produzir mais e conseguir maiores lucros. Nesse caso, as pessoas são estimuladas a desenvolverem trabalhos em grupos. Mas, ainda que rudimentarmente, é possível encontrar núcleos desses valores sociais na maioria dos lares e em alguns de maneira ainda bastante fortes.

De qualquer modo, atualmente, temos crianças mais “espontâneas” e mais agressivas, cujo respeito a si e aos demais é de caráter duvidoso.

As reuniões escolares infantis, que poderiam ajudar nesta relação pais-filhos-professores dão sinais de cansaço. Para facilitar juntam-se três ou quatro salas para uma reunião de pais: “Os pais não comparecem, não têm interesse, pois raramente estão presentes”, disse-me, visivelmente cansada, a coordenadora de uma escola infantil.

Dentro das salas de aula a agonia prossegue crescendo: “Se vocês falarem para a mãe de vocês que eu gritei, depois eu serei ainda pior” (fala de uma professora para seus alunos de 2º ano).

Uma criança, cuja professora gritou com ela na sala de aula por ter cometido o mesmo erro mais do que uma vez (creio que ela se esqueceu de que na lista dos materiais escolares constava borracha), por medo não pediu a lição de casa que é impressa e entregue todo final de aula. Os pais não ficaram sabendo, pois a criança com medo de mais represália da professora nada disse a eles. A mãe providenciou uma cópia através de uma colega de sala.

Tempos atrás um diretor de escola estadual me pediu um trabalho com adolescentes de quinta-série e enquanto conversávamos segredou: “Eu estou desistindo, tudo o que podia fazer eu já fiz, desde falar com os professores, providenciar palestras e reunião a respeito, chamar pais de alunos na escola, entrar na sala para conversar com eles, nada adianta, eles estão chegando muito agressivos uns com os outros”. Hoje ele não atua mais como diretor.

Quadro desolador?

Meu pai está com 87 anos e algumas vezes me contou histórias de seu tempo de escola (80 anos atrás). Em 1931, então com sete anos: “A gente ía de trem para a escola, porque onde eu morava não havia escola. Na Revolução de 1932 dinamitaram os trilhos e ficamos bastante tempo sem aula. Eu só fiz o primeiro ano, porque meu pai estava sempre mudando em busca de emprego nas olarias e com isso eu nunca conseguia fazer um ano completo; acabei deixando a escola na metade do segundo ano. Mas, acho que naquele tempo se ensinavam mais e melhor do que hoje. No segundo ano eu sabia “cubicar” (calcular) quantos metros quadrados tinha um terreno e as crianças de hoje não sabem nem somar direito nessa idade”.

No final da década de 80 Maria Helena de Souza A. Patto fez uma pesquisa para seu curso de mestrado, que deu origem a um livro interessante editado em início dos anos 90 chamado “A Produção do Fracasso Escolar”. Nessa pesquisa descobriu que muitas crianças abandonavam a escola por culpa da própria escola, de sua estrutura e de seus professores.

Duas situações se sobressaíam nesse contexto. A criança com dificuldade de aprendizagem não acompanhando o ritmo dos outros alunos era deixada para trás e ao final do ano era reprovada. Com isso teria que fazer novamente a mesma série e acabava gerando certo desnível no jeito de pensar dificultando a socialização, pois acabava tendo idade superior aos outros alunos.

A segunda situação que, possivelmente, levaram muitos a desistirem da escola, foi que, na medida em que avançavam em idade, mas não progrediam escolarmente, passavam a se perceber como “incapazes” dentro do ambiente escolar e, então, desistiam e iam trabalhar para ajudar no sustento da família.

 Talvez, um fruto dessa pesquisa seja o que chamamos hoje de “progressão continuada”, na qual o aluno (a) vai passando de ano e tendo recuperações paralelas, sendo avaliado (a) na quarta série e depois novamente na oitava série. Recentemente um professor disse que isso está para mudar com avaliações mais freqüentes de aprovação e reprova.

Importante lembrar que essa mudança não foi impulsionada apenas pela brilhante tese de Souza Patto, mas, talvez e principalmente, porque seus argumentos foram apropriados pelo governo e serviram de base para que se fizesse algo que “enxugasse” o número sempre crescente de abandono escolar, cujos números figurando nos relatórios mundiais nunca foram agradáveis aos governantes brasileiros.

Desde há muito que se tenta resolver os impasses da educação escolar. Em 1921 foi fundada na Inglaterra (aldeia de Leiston em Suffolk) uma escola chamada Summerhill. Uma escola alternativa e avançada “demais” mesmo para os dias de hoje, cuja história pode ser verificada no livro Liberdade sem medo Summerhill de A. S. Neill. E, em Portugal encontramos a Escola da Ponte.

Escola da Ponte - Portugal
Sobre essa última, entretanto, paira uma sombra. Estava participando do II Simpósio Internacional de Educação Inclusiva e um dos palestrantes que teria sido professor (ou diretor) dessa escola disse algo que me surpreendeu, pois considerava esta escola a partir do apresentado por Rubem Alves numa entrevista na TV ocorrida anteriormente e este evento. Sua fala: “Rubem Alves foi bastante poético ao descrever a Escola da Ponte, mas eu que trabalhei lá por vários anos, sei que não é tudo isso que ele falou”. Infelizmente, nesse simpósio, ele optou por não responder às perguntas que lhe foram dirigidas, a não ser de maneira vaga e imprecisa.

Condenar a estrutura escolar atual e de outros tempos desvinculando-a do contexto social, político e econômico é cair na armadilha da ingenuidade. Isso ficaria muito próximo ao que acontece nas empresas, onde a valorização do trabalhador se dá na mesma proporção de sua eficiência e por isso se investe maciçamente em cursos e palestras de motivação, cujos resultados, em geral, são inexpressivos.

Para que esse texto não se alongue ainda mais vou dividir esse tema em mais uma ou duas reflexões.

Sabemos que a educação escolar é parte importante na vida de todos nós. Assim, sentindo-se encorajado (a) dê sua contribuição nesta reflexão e nas próximas partes que virão, postando seu comentário,pelo qual antecipadamente agradeço..


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